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Technical Contributions
Aline Cardozo
Technical-educational content

Aline Cardozo

ABA applicator

Brincar também é desenvolver: a importância do brincar para crianças autistas

Uma contribuição técnico-educativa sobre brincar, atenção compartilhada, brincar simbólico, linguagem e formas de o adulto ampliar oportunidades de interação sem transformar toda brincadeira em terapia.

Training

Graduanda em Psicologia, Tecnóloga em Gestão de Pessoas

Area of activity

Análise do Comportamento Aplicada (ABA), Desenvolvimento Infantil e Intervenção no Transtorno do Espectro Autista (TEA).

Na infância, brincar pode envolver diversão, descoberta, interação, imaginação e exploração do mundo. Para crianças autistas, o brincar também pode oferecer oportunidades importantes de participação, comunicação, atenção compartilhada e aprendizagem, embora a forma de brincar varie muito entre indivíduos.

Algumas crianças podem demonstrar preferência por determinadas brincadeiras, repetir ações, explorar objetos de maneiras particulares ou mostrar menor interesse em compartilhar a atividade com outra pessoa. Essas características não devem ser tratadas automaticamente como algo a ser corrigido. Observar os interesses da criança e compreender como ela se relaciona com brinquedos, pessoas e ambientes pode ser um bom ponto de partida para ampliar oportunidades de interação.

Atenção compartilhada e brincar simbólico

Um dos aspectos bastante estudados no desenvolvimento de crianças autistas é a atenção compartilhada, que ocorre quando duas pessoas compartilham interesse ou atenção sobre um mesmo objeto, acontecimento ou atividade.

Kasari, Freeman e Paparella (2006) realizaram um ensaio clínico randomizado com 58 crianças autistas de 3 e 4 anos. As crianças foram distribuídas entre uma intervenção voltada à atenção compartilhada, uma intervenção de brincar simbólico e um grupo controle. As intervenções ocorreram por cerca de 30 minutos ao dia durante 5 a 6 semanas.

Ao final, o grupo de atenção compartilhada apresentou melhora em alguns comportamentos específicos dessa habilidade, enquanto o grupo de brincar simbólico mostrou maior diversidade e níveis mais altos de brincar em determinadas avaliações. Parte dessas mudanças também foi observada nas interações com as mães, sugerindo que alguns ganhos apareceram fora das situações estruturadas de avaliação.

Qual é a relação entre brincar e linguagem?

Em um acompanhamento posterior do mesmo estudo, Kasari e colaboradores (2008) examinaram desfechos de linguagem. As crianças que participaram das intervenções de atenção compartilhada e brincar simbólico apresentaram melhores resultados de linguagem expressiva em comparação ao grupo controle em determinadas análises, incluindo diferenças observadas meses após a intervenção.

Esse resultado não significa que simplesmente oferecer brinquedos produza desenvolvimento de linguagem. Os estudos avaliaram intervenções estruturadas e direcionadas a habilidades específicas. O brincar funciona como um contexto no qual oportunidades de comunicação, atenção conjunta, imitação e interação podem ser planejadas e ampliadas.

Como o adulto pode contribuir?

Uma revisão sistemática de Kuhaneck, Spitzer e Bodison (2020) analisou 20 estudos sobre estratégias utilizadas para favorecer o brincar de crianças autistas. Entre as abordagens estudadas estavam orientação a pais, mudanças em materiais ou ambientes, uso de vídeos, participação de pares e adultos, imitação e modelagem.

Os autores encontraram suporte moderado a forte especialmente para duas estratégias: imitar as ações da criança e modelar novas formas de brincar. Outras estratégias apresentaram suporte menor ou resultados mistos.

Isso sugere uma orientação prática importante: antes de tentar mudar a brincadeira, o adulto pode primeiro observar, acompanhar e entrar no interesse da criança. A partir daí, pode introduzir gradualmente novas possibilidades, sem substituir de uma vez aquilo de que a criança gosta.

Nem toda brincadeira precisa virar terapia

Há evidências promissoras para intervenções direcionadas à atenção compartilhada e ao brincar simbólico, mas isso não significa que todo momento de brincar deva ser transformado em sessão de ensino ou terapia.

A criança também pode brincar simplesmente porque gosta. Pais e cuidadores podem acompanhar, imitar, participar, apresentar novas possibilidades e aproveitar situações naturais de interação, respeitando o ritmo, os interesses, a comunicação e os limites da criança.

O objetivo não é ensinar a criança a brincar de um único jeito considerado “correto”, mas ampliar repertórios e oportunidades de participação quando isso fizer sentido para ela.

Brincar como encontro

O brincar pode ser espaço de aprendizagem, mas também de vínculo, prazer e conexão. Em vez de começar perguntando “como ensinar esta criança a brincar?”, muitas vezes pode ser útil começar por “como esta criança já brinca e o que desperta o interesse dela?”. Essa observação pode abrir caminhos mais respeitosos para ampliar comunicação, interação e novas experiências.

Nota sobre as evidências: os estudos citados investigaram intervenções estruturadas de atenção compartilhada, brincar simbólico e estratégias para ampliar o brincar. Seus resultados não significam que qualquer brincadeira, isoladamente, produza os mesmos efeitos nem que todas as crianças autistas respondam da mesma forma.

References used

  1. KASARI, Connie; FREEMAN, Stephanny; PAPARELLA, Tanya. Joint attention and symbolic play in young children with autism: a randomized controlled intervention study. Journal of Child Psychology and Psychiatry, v. 47, n. 6, p. 611–620, 2006. DOI: 10.1111/j.1469-7610.2005.01567.x. Consult source
  2. KASARI, Connie; PAPARELLA, Tanya; FREEMAN, Stephanny; JAHROMI, Laudan B. Language outcome in autism: randomized comparison of joint attention and play interventions. Journal of Consulting and Clinical Psychology, v. 76, n. 1, p. 125–137, 2008. DOI: 10.1037/0022-006X.76.1.125. Consult source
  3. KUHANECK, Heather; SPITZER, Susan L.; BODISON, Stefanie C. A Systematic Review of Interventions to Improve the Occupation of Play in Children With Autism. OTJR: Occupation, Participation and Health, v. 40, n. 2, p. 83–98, 2020. DOI: 10.1177/1539449219880531. Consult source
  4. KASARI, Connie et al. Longitudinal follow-up of children with autism receiving targeted interventions on joint attention and play. Journal of the American Academy of Child & Adolescent Psychiatry, v. 51, n. 5, p. 487–495, 2012. DOI: 10.1016/j.jaac.2012.02.019. Consult source

Editorial curation

Projeto Acolher TEA — organização e enriquecimento editorial a partir do material enviado pela Embaixadora

Contribution date

18/08/2026

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